A crueldade de uma vida de mentira 

Montagem carioca mostra personagens presos a conflitos, frutos de um amor vivido em segredo

As dificuldades em assumirmos as nossas verdades e o que isso provoca nos mais diversos níveis de relação.  “Tom na Fazenda”, espetáculo que a ABGV Produções Artísticas apresenta no FILO nesta terça (15/08) e quarta (16/08), às 21 horas, na Usina Cultural, trata dessas dificuldades ao abordar questões como homofobia, intolerância, violência sem meias palavras.

Na montagem dirigida por Rodrigo Portella, a chegada de Tom para o funeral de seu companheiro na fazenda da família desencadeia uma série de conflitos entre todos os envolvidos na trama, que tem como pano de fundo um amor vivido em segredo. Temas como homofobia, intolerância, violência são tratados sem meias palavras no espetáculo. O amor aqui, como em quase todas as relações, é sufocado por mentiras  pelo medo da não-aceitação da família e da sociedade.  Mas a montagem do texto do canadense Michel Marc Bouchard expõe muito mais do que questões relativas à sexualidade, e propõe reflexões mais amplas sobre as relações humanas.  

O diretor Rodrigo Portella

O ator Gustavo Vaz, que na peça interpreta Francis, o irmão homofóbico do falecido, chama atenção para o fato de que o ambiente rural onde a trama se passa tem uma presença religiosa muito forte, que acaba afastando a família do pensamento crítico.  “A fazenda é o lugar propício para que a ignorância em relação ao outro seja fortalecida, e o Francis é resultado dessa cultura. Que no fundo, é como a história do bandido que rouba: as pessoas acham que ele precisa ser morto, e não percebem que ele é fruto da sociedade da qual a gente faz parte, que corroboramos com situações que o levaram a roubar, perpetuando assim o problema da violência”, comenta.

Nesse ambiente austero e rude da fazenda,  a mentira que sufoca o amor entre Tom e o namorado falecido ganha dimensões que coloca todos os personagens como cúmplices.  Tom, um publicitário bem resolvido com sua sexualidade, ignora o fato de que a homossexualidade era desconhecida pela mãe do namorado. “Tom opta por não falar, e acaba engolido pelo lugar, pela fazenda, se submetendo à mentira, à truculência do irmão do namorado”, observa o ator Armando Babaioff, que também assina a tradução do texto.   

Parte do elenco de Tom na Fazenda

Para sustentar a ilusão da mãe a respeito do filho, Tom convida uma amiga, interpretada pela atriz Camila Nhary, para se passar por namorada do falecido.  “Sara é a personificação da mentira. Sua chegada na fazenda provocará um choque em todos, ao mesmo tempo em que ela tenta resgatar Tom da situação que ele passa a vivenciar naquele lugar”, comenta a atriz.

Os atores observam que o espetáculo, por falar de conflitos humanos e independente da questão da sexualidade, faz com que as pessoas acabem se identificando  em algum momento. “Interessante ver como isso faz com que um texto escrito no Canadá se torne universal”, observa Vaz.  No entanto, ele enfatiza o papel político que a peça tem ao tocar em um tema tão delicado, em um momento em que a intolerância avança pelo mundo. “Falar sobre isso agora é fundamental. O teatro é um espaço para falar e ser ouvido, em um encontro real, em uma experiência coletiva capaz de despertar pensamentos críticos”, finaliza.

Guto Rocha/ Assessoria de Comunicação FILO

 

Tom na Fazenda
ABGV Produções Artísticas (Rio de Janeiro)

15 e 16 de agosto
21 horas
Usina Cultural (Avenida Duque de Caxias, 4159)

Classificação indicativa: 18 anos

 

Serviço:

Festival Internacional de Londrina – FILO 2017
De 11 a 27 de agosto
Realização: Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná e Universidade Estadual de Londrina
Patrocínio: Petrobras, Governo Federal, Prefeitura de Londrina / Secretaria Municipal da Cultura / Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), Caixa Econômica Federal, Unimed.
2017-08-15T17:21:54+00:00 15 de agosto de 2017|