A delicada situação dos festivais pelo Brasil

Manifesto elaborado pela “Rede Brasileira de Festivais de Teatro” pede a construção de uma política pública para a sobrevivência dos eventos realizados no País
 
A situação dos festivais de arte vem causando muita preocupação entre coordenadores e diretores, e chegou a hora de o público se preocupar também. A Rede Brasileira de Festivais de Teatro, organização que acolhe mais de 60 eventos em todas as regiões do País, vai até a comissão de cultura da Câmera dos Deputados em Brasília no final deste mês para discutir a situação dos eventos, muito penalizados diante da crise econômica e política que o Brasil vem atravessando. A Rede pretende expor a situação alarmante e pedir uma verdadeira política pública para a sobrevivência dos festivais realizados no Brasil.

Marcelo Bones, coordenador geral do Observatório

Dados levantados pelo Observatório dos Festivais – site que reúne informações sobre os eventos em todo o País – dão conta que entre os anos de 2015 e 2016 os orçamentos de 25 festivais movimentaram mais de 50 milhões de reais, com um público superior a dois milhões de pessoas, gerando mais de 15 mil empregos diretos. Foram mais de 400 espetáculos nacionais e internacionais que circularam no país. “São números que demonstram a relevância cultural, artística, educacional e econômica dos festivais”, diz Marcelo Bones, diretor teatral e coordenador geral do Observatório. Os números poderiam ser ainda mais positivos: graças à crise, os orçamentos dos festivais sofreram uma diminuição de 30% a 50%, enquanto outros acabaram sendo cancelados por falta de sustentação financeira. 

Diante da situação, os festivais que resistem são obrigados a assistir uma precarização da estrutura, já muito enxuta e essencial. Quanto aos festivais cancelados, o prejuízo é incalculável. “Diferentemente do que as pessoas pensam, um festival não acontece isoladamente. O trabalho para a próxima edição começa quando termina o evento, é anual. Quanto uma estrutura é desmontada, voltar a lubrificar todas as engrenagens é difícil. O festival perde credibilidade junto aos financiadores, fica aquela incerteza. É um prejuízo muito grande”, diz Bones.

Luiz Bertipaglia, diretor do FILO ©Milton Dória

Manter um Festival por tantos anos, como o Festival Internacional de Londrina, que ano que vem completa 50 anos de vida, é um desafio. “Passamos por um momento de dramas e farsas na vida nacional, uma comédia de erros. Mais que 50 anos de existência! É meio século de resistência”, sentencia Luiz Bertipaglia, diretor do FILO, o mais antigo Festival de teatro da América Latina em atividade contínua.

 

Confira, a seguir, o texto integral do Manifesto  da Rede Brasileira de Festivais de Teatro:

 

A CONTINUIDADE DOS FESTIVAIS

Manifesto da Rede Brasileira de Festivais de Teatro

A Rede Brasileira de Festivais de Teatro, articulação que abrange mais de 60 festivais em todas as regiões do país, em meio à grave crise democrática e econômica pela qual passa o Brasil, vem a público reivindicar, urgentemente, a construção de uma política pública para a sobrevivência dos festivais realizados no Brasil.

Os festivais de artes cênicas têm papel fundamental e decisivo na difusão e circulação da produção artística brasileira. Promovem um intenso trabalho de formação de público, descentralização cultural, fomento ao intercâmbio nacional e internacional, qualificação artística, técnica e de gestão, contribuindo para a difusão da imagem do Brasil no exterior, além de impulsionar mercados de trabalho e economias locais. Geram também uma interface com vários outros setores da economia e da sociedade, tais como turismo, educação, tecnologia, comunicação, ação social, entre outros.

Num levantamento preliminar, realizado através do esforço dos próprios festivais, entre os anos de 2015 e 2016 os orçamentos de 25 festivais movimentaram mais de 50 milhões de reais. Estes eventos alcançaram um público superior a 2 milhões de pessoas, gerando mais de 15 mil empregos diretos. Foram mais de 400 espetáculos nacionais e internacionais que circularam no país. Estes números demonstram a robustez dos festivais e apontam para sua relevância cultural, artística, educacional e econômica.

É urgente, inadiável e premente a construção de uma política pública para o setor, que responda aos desafios colocados pelo avançado estágio de complexidade das artes cênicas brasileiras. Que seja capaz de criar um sistema orgânico, democrático e participativo, que viabilize a sustentabilidade dos festivais, e ainda, que vislumbre ações e metas de longo prazo, destinadas ao fomento deste estratégico segmento.

Infelizmente, pouco se avançou para a efetiva implementação das reivindicações constantemente lançadas desde 2004 quando os festivais começaram se organizar. Assim, a Rede Brasileira de Festivais de Teatro retoma sua pauta e propõe o imediato debate e encaminhamento, através das seguintes diretrizes:

1- A busca de um modelo de financiamento e gestão que se adeque às necessidades específicas dos festivais e aponte para uma estratégia de continuidade e consolidação;

2- Criação de um grupo de trabalho como canal de interlocução entre diversos ministérios e agências públicas, além do Ministério da Cultura, buscando soluções transversais para os marcos regulatórios trabalhistas, fiscais, tributários e alfandegários;

3- Fomento à criação de encontros e redes relacionadas à produção de festivais de dança, circo e teatro e performance.

4- Apoio do poder público para a realização de estudos e pesquisas sobre os impactos artísticos e econômicos dos festivais;

5- Ampliação do diálogo com as três esferas de governo, iniciativa privada, artistas, meios de comunicação e sociedade em geral, reforçando a importância estratégica da realização dos festivais para o desenvolvimento artístico e econômico do Brasil.

 

Belo Horizonte, 17 de agosto de 2017

2017-08-26T15:42:34+00:00 25 de agosto de 2017|