Geografia da fome num mangue pop

O premiado “Caranguejo Overdrive” está em Londrina para três apresentações no FILO 

“Caranguejo Overdrive”, premiado espetáculo que Aquela Companhia de Teatro (RJ) apresenta nos dias 6 e 7 de setembro no Festival Internacional de Londrina – FILO, conta a história de Cosme, ex-catador de caranguejos no mangue carioca da metade do século XIX. Ganhadora em três categorias do Prêmio Shell (Pedro Kosovski/melhor autor, Marco André Nunes/melhor diretor e Carolina Virguez/ melhor atriz), a montagem tem três apresentações programadas na Divisão de Artes Cênicas da Casa de Cultura da UEL.

Convocado para integrar as forças brasileiras na Guerra do Paraguai, Cosme enlouquece no campo de batalha, volta ao Rio de Janeiro e encontra uma cidade em grande transformação. Mergulhado na guerra, ele sofre um colapso. De volta à cidade onde nasceu, encontra um Rio de Janeiro em convulsões urbanísticas – uma cidade, para ele, irreconhecível e com sabor de exílio.

Em seu retorno, o ex-combatente procura o Mangue – a parte da cidade então chamada Rocio Pequeno, hoje a Praça 11 – e se emprega na construção do canal que representou a primeira grande obra de saneamento do Rio. Mais uma vez é presa de uma crise – abandona tudo, vaga pela noite, mergulha no delírio. Apanhado por uma tempestade dessas tão conhecidas dos cariocas, ele se torna enfim um caranguejo.

Mais duas referências se impõem na proposta de “Caranguejo Overdrive” – a primeira, a do Manguebeat de Chico Science, uma fusão de música eletrônica e tambores de maracatu. A música em cena compõe a performance, com Felipe Storino (guitarra e direção musical) à frente. São todas canções/trilhas originais, dialogando com a performance dos atores. “É uma dramaturgia musical no atravessamento entre teatro e música”, define Pedro Kosovski, autor do texto. “Construímos o espetáculo através de um processo aberto, que se renova a cada ensaio, onde atores e músicos são também criadores”, diz Marco André, o diretor.

A segunda referência é ao trabalho do geógrafo pernambucano Josué de Castro e seu clássico “Geografia da Fome”, em sua dura poética, que serve aqui de mote: “A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo. São seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo – este leite de lama -, se faziam irmãos de leite dos caranguejos. […] A impressão que eu tinha era a de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama” .

As relações entre teatro e literatura marcam Aquela Cia. desde “Projeto K.”, primeira montagem do grupo em 2005, a partir da vida e obra de Franz Kafka. Nesses anos de trabalho, a companhia dialogou com Goethe e seu Jovem Werther, com Herman Hesse e seu O Lobo da Estepe, com James Joyce e seu Retrato do Artista Enquanto Jovem – entre outros.

Essa abordagem contemporânea dos clássicos levou ao diálogo com a cultura pop. Em montagens como “Outside” e “Cara de Cavalo”, Aquela Cia. traz à ribalta música e espetacularidade em abordagens originais e surpreendentes para obras de David Bowie e Hélio Oiticica. Em “Edypop”, Édipo, o mais pop dos heróis gregos se encontra com John Lennon, o mais trágico dos artistas pop.

Ficha técnica:

Direção: Marco André Nunes | Texto: Pedro Kosovski | Com Carol Virguez, Eduardo Speroni, Matheus Correia, Felippe Marques, Alex Nader, Felipe Storino, Mauricio Chiari, Samuel Vieira, Pedro Araujo | Produção: Núcleo Corpo Rastreado.

CARANGUEJO OVERDRIVE

AQUELA CIA DE TEATRO — RIO DE JANEIRO, RJ

6 DE SETEMBRO — 20H30

7 DE SETEMBRO — 18H30 E 21H30 (dois horários)

DIVISÃO DE ARTES CÊNICAS CASA DE CULTURA UEL

(AV. CELSO GARCIA CID, 205)

DURAÇÃO 75 MIN – CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 16 anos

 

Serviço:

Festival Internacional de Londrina – FILO 2016

De 26 de agosto a 11 de setembro

Realização: Associação dos Amigos da Educação e Cultura Norte do Paraná e Universidade Estadual de Londrina

Patrocínio: Petrobras, Governo Federal, Prefeitura de Londrina / Secretaria Municipal da Cultura / Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), Universidade Estadual de Londrina, Unimed Londrina, Horizon – John Deere.

Ingressos: Ponto de vendas no Royal Plaza Shopping (Rua Mato Grosso, 310) e pela internet www.filo.art.br ewww.diskingressos.com.br. Valor: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia-entrada).

Informações: www.filo.art.br

2016-09-07T15:55:26+00:00 7 de setembro de 2016|0 Comentários

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